Dance in the Dark

sábado, 22 de maio de 2010

Blair era uma mulher que gostava de dançar no escuro. Gostava, no passado. Isso porque havia em sua vida um homem chamado Lenny. Eles já estavam juntos a cerca de um ano e meio, até que um dia ela se foi.

Embora os dois fossem muito jovens- ambos tinham 20- não havia dúvida de que sabiam lidar com o relacionamento. Tudo ia de acordo com as boas expectativas, e isso vinha desde quando se conheceram, ela se apaixonou por ele à primeira vista e ele a pediu em namoro. Exceto por uma coisa: aquele garoto era um monstro.

Blair tinha corpo e mente de uma mulher de 20 anos, era bonita o suficiente para conseguir o homem que quisesse, e ainda fazê-lo ser seu para todo sempre. Porém esse seu potencial era totalmente enclausurado e desconhecido por causa de Lenny. Poderia ser paranóia dela, mas algo em suas falas e feitos davam a entender que ele nunca estava satisfeito com ela, tanto em aparência como em atitudes.

Sempre muito cega pelo amor que nutria por ele, nossa recalcada personagem não se cansava de tentar mudanças, com o objetivo de preencher as satisfações de seu namorado. E essas eram tentativas de todas as formas possíveis. Incontáveis fórmulas de beleza e comportamento foram experimentadas. Enfim, Blair vivia uma vida que, pelo menos em sua cabeça, Lenny parecia exigir e gostar.

E o que muitas mulheres não sabem, assim como ela não sabia, é que suas vidas não podem ser ditadas pelas vontades dos homens e nem devem girar em torno deles. Porque eles não são assim. Demorou até Blair perceber que vivia a vida errada.

Foi em uma sexta-feira quando ela se despertou para o erro que cometia a mais de um ano, e o chamou para sair e dançar em alguma boate mais à noite. Fazia tempo que não saiam pra se divertir assim, e estava decidida a dizer a ele tudo sobre como se sentia quando estivessem já indo embora.

Para ele, era só mais uma noite em que ficaria sentado no bar tomando drinks e sendo obrigado a analisar os olhares de Blair para os outros rapazes. Para ela era a noite em que iria mudar de vida. Descobrira quão errado era seu namorado ao ser tão exigente, e estava alerta para suas “atitudes monstruosas”.

Sua vontade para aquela noite era de dançar enlouquecidamente, até conseguir colocar tudo no passado. Acordaria na manhã seguinte com ressaca dos tantos “porres” que tomara na boate. Encorajada por essa idéia, a garota vestiu um vestido corselet preto, meia arrastão e botas de salto grosso.

Estava realmente muito linda quando se encontraram e Lenny soltou um leve elogio, seguido de uma grosseria desnecessária:

- Você está muito bonita, minha gata! Já vou avisando que não quero saber de você dançando feito uma louca ao meu lado. Se comporte, afinal você é minha mulher... E devia ter colocado um vestido mais longo e menos apertado, seus seios estão quase pulando pra fora!

- Tudo bem, lindo. – respondeu, decidindo que ainda não era hora de começar o diálogo que planejara.

Ao entrarem no local, ele logo a levou para um canto, perto do bar, onde estava a fila para comprar bebidas. O DJ tocava uma seqüência de Lady Gaga e as pessoas dançavam a vontade por ali, indo em direção à escura pista de dança no centro do recinto.Enfim, pegaram suas bebidas e ela se virou para o namorado:

- Vou dançar. Encontro com você aqui quando o set terminar.- disse, se desvencilhando dos braços dele.

- Ok! – disse Lenny, achando estranho, mas deixando-a ir.

Dessa vez ela não iria ficar parada com ele ao bar, ouvindo sobre como deveria se comportar na frente dos outros e desejando estar no escuro da pista para poder se ver livre dele, e dançar como bem entendesse. Hoje ela ia fazer o que sempre quis e nunca pôde.

Afinal, ela era uma mulher livre.

Pena que demorou muito para ela se dar conta disso.

Na pista de dança, cantando alto e dançando no escuro, longe do olhar crítico do namorado, Blair se sentia bem. Tomou um gole do sex on the beach que havia pedido no bar. Há quanto tempo não bebia álcool; se deu conta de que tudo do que sentia saudade em sua vida estava ali a sua volta, e ela, por alguns instantes pelo menos, tinha tudo de novo. Estava realmente se divertindo.

Mas, de repente, algo estranho aconteceu. Sua visão se embaraçou, e ela se sentiu fraca. Que bebida forte!, pensou, rindo do fato de já não estar mais tão forte para bebidas como antes. Após alguns segundos, retornou ao estado normal. Mas não durou muito tempo e, dessa vez além de visão embaraçada e fraqueza, ela vomitou sangue.

O desespero a tomou naquele momento, e ela sabia que estava morrendo. Sentia-se desfazendo em pedaços em meio a tudo que deixou de viver e experimentar em troca do amor de Lenny. Era tarde, pois tudo que fizera em nome de seu suposto amor ao final das contas de nada valeu. Pelo contrário: suas tentativas de satisfazê-lo, esquecendo-se de viver sua própria vida, a fizeram cair num buraco enorme, bem longe de si.

Blair morreu naquela noite por overdose; o motivo: mistura de substâncias químicas presentes em remédios com álcool.

Pelo menos estava dançando no escuro.


"Silicone, saline, poison...

Inject me, baby

I'm a free bitch!


Tell them how you feel, girls

Find your freedom in your music

You'll never fall apart

Together we will dance in the dark!"

Lady Gaga



Texto inspirado na música de Lady Gaga, Dance in the Dark, ouça clicando aqui.


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