Speechless

sexta-feira, 14 de maio de 2010
Em um cabaré de luxo, nos anos que seguem à década de 60, se encontrava sentado à direita - num sofá vermelho, já surrado de tantos homens e mulheres, promíscuos ou não, que estiveram ali, deleitando-se com as maravilhas da cidade de Chicago – um homem que usava chapéu coco verde escuro, e gravata vermelho-sangue. Ele fumava um Tejano, e bebia aguardente. No seu rosto, nenhuma feição definida, a não ser frieza.
Mais à esquerda do recinto, um piano de cauda e, pouco mais para o lado, mesas redondas com cadeiras acolchoadas, numa das quais estava sentada uma mulher. Ao contrário daquele homem, ela parecia estar sofrendo e bebia whisky 12 anos, o mais caro oferecido pelo bar do local. Ela estava um tanto quanto inadequada naquele cabaré. Usando vestido longo e negro como os olhos. Seu make-up também não combinava em nada com o lugar.

Ali as mulheres se mostravam de pernas nuas e contornos avantajados; e todo o brilho e glamour que a cidade exibia lá fora eram pouco para elas. Em suas apresentações num palco pequeno, porém rico em detalhes, elas se vestiam como divas, verdadeiras rainhas do mundo clandestino ao qual pertenciam, porém impecáveis na arte da dança e no brilho que exalavam.

Naquela noite, chovia em Chicago e o recinto já estava pra fechar por conta da freguesia que não se fez presente naquele dia. Mesmo assim, as pin-ups, com seus maiôs e saltos, dançavam animadamente uma música, que até então estava sendo tocada por um homem, tão bem vestido quanto elas, ao piano.

Não se destacando entre os poucos presentes no local, aquela mulher que estava sentada ao lado do piano e bebia whisky passava a imagem contrária que o lupanar possuía. Algo estava errado com ela, e não era de sua vontade demonstrar que essa impressão deveria ser diferente. Ela aparentava precisar de ajuda quando se levantou, cambaleando, pegou sua garrafa de whisky e seu copo e se arrastou até onde o homem tocava, agora, a música Delilah, de Tom Jones.
Naquela luz vermelha de penumbra, ela falou algo ao ouvido do pianista, que logo se levantou, dando seu lugar a ela. Colocou a garrafa e o copo sobre o piano; parecia muito tonta para conseguir soltar uma nota sequer daquele instrumento. Porém, brilhantemente, começou a tocar uma canção, que a julgar pelo estranhamento do pouco público ali presente ao não reconhecer a letra, era de sua própria autoria. Na letra, versos nos quais ela dizia que o homem de sua vida havia desistido de seguir em frente junto a ela, e que ele a deixou sem palavras ao partir.

“I can’t believe what you said to me

Last night when we were alone… you threw your hands up…

Baby, you gave up! You gave up! …

I’ll never love again.

Oh boy, you’ve left me speechless”

Entre os versos sofridos que pareciam sair com dificuldade, ela pegava seu copo com whisky e tomava um gole.

“How?

Hooow?!”

Como em um ato de ódio e injúria pela situação em que se encontrava – chorando por um homem vazio que a deixara, e tocando uma canção que havia composto há poucos dias, e que de nada interessava aos presentes no local – pegou a garrafa de seu 12 anos que deixara em cima do piano, e quebrou-a com violência. Aqueles pequenos cacos de vidro pelo chão ao seu redor se comparam à forma em que seu coração se encontrava naquele momento.
Enquanto ela ainda tocava aquela bela, porém desconhecida música, o homem de chapéu coco e gravata vermelha, que estava sentado no sofá a direita do cabaré, se levantou de supetão, em meio às pessoas que agora já pareciam estar interessadas na música, e lançou um olhar a mulher ao piano. Por um momento, ela pareceu não ter percebido, mas bastou um momento para que seus olhares se encontrassem.

“And after all the bars and drinks that we’ve been to...

Would you give it all up? Could you give it all up

If I promise, boy, to you… that I’ll never talk again,

And I’ll never love again, I’ll never write a song… or even sing a song?

You’ve left me speechless…”
Se perguntasse para algum dos poucos que notaram a troca de olhares entre os dois, não saberia responder ao certo qual era o mistério por trás daquele olhar que ele lançava para a pianista.
Ele desgrudou rapidamente seu olhar do dela e se virou rumo à saída daquele cabaré que mais o fez sofrer do que o acolheu, como era de se esperar. Às suas costas, uma lágrima desceu das sombras negras dos olhos da mulher ao piano, que agora parecia sumir em meio à escuridão daquele canto.

"Why are you so speechless?

Oh, oh, oh!”


Texto inspirado na música Speechless - Lady Gaga.

1 comentários:

Ninna disse...

hmmm muito bom.. ^^

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